11 de fevereiro de 2010

Minha gaveta quebrou e dela saiu um animozinho que faltava

Há uma gota de sangue em cada poema.

Há poesia nas paredes de toda casa,
nos vasos de flores que tudo escutam e veem.
Há poesia na nuvem que passa,
formatos inconfessos que o olhar cuidadoso deflagra.
Há poesia na vida e na morte
A morte morrida à duras penas vivida.

Há poesia no trânsito caótico
No cinza-concreto de todo dia,
no caminho do pão-nosso de cada dia.
Há poesia na reza, no choro inconsolável,
no riso que estala
na hora certa (ou errada).

Há poesia às cinco da manhã,
no primeiro abrir de olhos do dia.
Há, sim, poesia nos dias,
com a certeza de que muitos outros virão
e que com a mesma leveza irão embora.

Ah, eu? Eu não me importo.
Seja vivo ou seja morto,
olhos abertos ou fechados,
eternizo-me nestes versos
propositadamente mal rimados.

Poeminha singelo

Risinhos de crianças que corriam serelepes
Ali e agora como se não existisse o mundo
"Bento que Bento é o frade?!"
Interrompidos são pela mãe que grita:
"Sai daí, já para casa que tem perigo de noite!"
Corre e corre e corre (pressa).
O vento canta, janela fecha, criança dorme: folia nova amanhã de manhã.

E eu? rabisco.

29 de janeiro de 2010

Palavras outras muito necessárias

"O poeta disse
olha o céu
olhei, vi um pássaro
e o poeta me contou
que o pássaro
era eu"

Mais alguns versinhos escondidos em Diálogos a Sós

18 de janeiro de 2010

Não satisfeito, escreve alguma coisa que ninguém nunca leu só para inovar e viver mais um pouco, bem mais que algumas linhas

Eu queria bem mais que algumas linhas
Umas páginas
Ou uns capítulos bobos.
Eu queria bem mais tudo
Mais que tudo
Mais do que eu mesmo suportaria.
Sou assim visceral, carne-viva
Paulada no morto
Grito do cachorro da esquina.
Muita vida, nem sempre vivida
Vívida qual pão dormido.
Sou as várias esquinas,
Limite
Limitado
Limitando
Procurando mais ruas
Mais linhas
Porque o caminho nunca acaba
Mas a estrada finda, afina
E um dia, ah! que demore
Hei de chegar
Como aquela última que morre.

30 de dezembro de 2009

Metalinguajar

O bonde passa cheio de pernas,
pernas brancas pretas amarelas.
Passa o meu tempo, contratempo,
pois desdigo o que penso
já que não posso mais falar.
A veia do poeta é turva
e os cabelos ralos
(cobrindo olhos cansados).
Sua caneta defeca bolinhos de tinta
que já não dizem nada,
mas outrora disseram
o que ninguém mais expressaria.
Pegue, doutor, esta tesoura,
e corte minha singularíssima pessoa.
Aqui jaz o eu-lírico
estirado sobre o papel,
que a tinta suja, afaga e refresca.
Sangue, por que não?
posto que há sentimento,
talvez um monte de nada
que preenche umas linhas.
Se é para isso que serve o poeta,
eu te digo, poesia:
de tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo
e sempre
e tanto.
Se insiste em morrer
eu também me morro em palavras:
mas que seja infinito enquanto dure.

27 de dezembro de 2009

Parangolé

Na dança gira feito roda
Rodam pés, cabeças tortas.
Braços de vento, rodopios,
gira-girou vestido.
Anil desbotado, flor no cabelo,
braços de vento, pés em roda.
E a dança consome o chão,
Consome o pé, o pó da terra,
terra que gira,
roda,
gira-girou.
Dança dos braços e abraços,
dos quase movimentos
longilíneos, entrelaçados.
E dança
E roda
E rodopia
Aproveita toda essa gira
que se mantinha viva
e num gira-girar
parou.